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EDIÇÃO 130
JUNHO DE 2009
 

Pesquisa revela o retrato do brasileiro nos Estados Unidos

Laine Furtado

Para saber quantos somos, onde estamos, quanto ganhamos e como vivemos nos Estados Unidos, o pesquisador Álvaro Lima, diretor de pesquisas do Boston Redevelopment Authority, com mestrado em economia pela New School for Social Research, tem apresentado várias pesquisas sobre o crescimento da comunidade brasileira nos EUA nos últimos anos, sempre baseando seus estudos no Censo Americano, no Banco de Desenvolvimento Interamericano (BID), e principalmente em pesquisas de amostragem realizadas por ele, Pete Plastrik, Eduardo Sequeira, Eugenia Garcia-Zanello e Manuel Orozco.

No livro que Álvaro Lima acaba de lançar nos Estados Unidos,”Brasileiros na América”, ele organiza a comunidade brasileira em três áreas específicas. Quantos somos e onde moramos? Quem somos e o que fazemos? Quanto contribuímos economicamente, dentro dos Estados Unidos e com envios de dinheiro para o Brasil? Baseado em sua última pesquisa e dados do Censo Americano, da American Community Survey e do Banco de Desenvolvimento Interamericano, Álvaro levantou um perfil do brasileiro que vive nos Estados Unidos.

Para se ter uma idéia em termos de números, o Censo Americano de 2000 contou 212,428 brasileiros morando nos Estados Unidos. Dados de 2007 do “American Community Survey” (ACS) calcula que este número seja hoje de 342,463, um aumento de 61%.  Á lvaro disse que estas estimativas subestimam o tamanho da atual população de brasileiros porque não capturam as pessoas que não responderam o censo de 2000. O ACS com a sua amostra pequena cria o mesmo problema. Daí a importância de pesquisas específicas sobre a comunidade brasileira nos EUA . Álvaro fala também sobre a importância do censo de 2010, onde todos os brasileiros devem participar. “Precisamos ser contados”.

Ele explica que o Censo é uma exigência da Constituição dos Estados Unidos e garante a distribuição justa de recursos federais para as comunidades em todos os estados. A contagem da população tem de ser feita a cada 10 anos e está diretamente ligada à distribuição de recursos federais para os estados e as comunidades. Esses recursos serão usados para escolas, estradas, hospitais, assistência a pessoas carentes e muito mais. A contagem populacional também determina o número de deputados estaduais, que representam os interesses das comunidades de cada estado.  

Durante o Focus Brazil, num painel sobre o censo 2010, Álvaro Lima alertou sobre a importância do brasileiro se registrar, de buscar informação sobre a melhor forma de preencher o formulário, que consta somente de uma folha bem simples de responder. Mesmo que a pessoa seja indocumentada, ela deve responder ao censo. Durante o Forum, Alexandra Barker, Media Partnership Specialis do U.S. Census Bureau News, disse que por lei, o Censo não pode distribuir as respostas individuais com o FBI, a CIA, a Imigração, ou qualquer outra agência governamental. “Nenhum tribunal, nem mesmo o presidente dos Estados Unidos, tem direito de acessar essas respostas. Toda informação pessoal fornecida ao Censo é protegida por uma lei federal e qualquer pessoa que infringir esta lei será punido com 5 anos de prisão e US$ 250,000 de multa’, garantiu.  

Com uma participação mais ativa no próximo censo, os brasileiros vão ter a oportunidade de serem visíveis para a comunidade americana, principalmente porque os dados sobre os brasileiros divulgados hoje pelo governo americano não representam a realidade da comunidade nos Estados Unidos, por isso a importância de estudos que possam revelar e traçar um perfil dos brasileiros no país. Álvaro Lima acredita que a grande questão hoje é sabermos quantos brasileiros moram nos Estados Unidos? Segundo ele, a melhor forma de responder a esta questão é usar os dados de remessa de dinheiro e “transformar” estes dados em estimativas da população.

De acordo com o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), os brasileiros vivendo nos Estados Unidos enviaram $2.7 bilhões para o Brasil em 2006. O valor médio das remessas enviadas por brasileiros dos Estados Unidos para o Brasil foi de $300 a $400 e a frequência média de remessas enviadas por brasileiros dos Estados Unidos para o Brasil foi de 10 a 12 vezes por ano. Álvaro explica que a proporção da população brasileira morando nos Estados Unidos que envia remessas para o Brasil está entre 60% a 70%. “Baseado nestes números, podemos estimar que em 2007, de 803,000 a 1.4 milhões de brasileiros viviam nos Estados Unidos”, afirmou.  Segundo os dados coletados na pesquisa, mais de 16 estados brasileiros contribuem para o fluxo emigratório, os quatro maiores estados de origem dos emigrantes brasileiros são Minas Gerais; Goiás; São Paulo; Paraná e Santa Catarina.

Sobre onde estão os brasileiros nos Estados Unidos, Álvaro explica que a Flórida concentrava 21% da população brasileira em 2000, sendo o estado de destino mais popular para os brasileiros; mas que hoje, Massachusetts tem a maior concentração de brasileiros que moram nos Estados Unidos (23%). Nos dados da 2007 American Community Survey, os brasileiros estão em Massachusetts, Flórida, New Jersey, California, New York, Connecticut, Georgia, Texas, Maryland e Pennsylvania. Veja o mapa ao lado com a concentração de brasileiros nos Estados Unidos em 2000 e 2007.

Em relação ao perfil desses brasileiros, veja os dados coletados. Em 2007, a idade média dos imigrantes brasileiros nos Estados Unidos era de 35.8 anos, similar a média de idade da população nativa e consideravelmente menor do que a dos outros imigrantes (40.2 anos). No entanto, a distribuição etária dos brasileiros é mais similar a dos outros imigrantes do que da população nativa. A vasta maioria dos brasileiros e dos outros imigrantes está na idade de trabalho. As mulheres representam 50% de todos os imigrantes e 51% dos imigrantes brasileiros e da população nativa. Os imigrantes brasileiros tem uma propoção maior de pessoas que são casadas (56%) do que da população nativa (49%) e menor do que da dos outros imigrantes (60%).

Com relação a cidadania e tempo de residência, os brasileiros tem um grau de naturalização menor do que todos os imigrantes. Somente um quarto dos imigrantes brasileiros são
cidadãos americanos, enquanto 43% de todos os imigrantes são naturalizados. Isto não é surprendente dado que uma proporção significante da população imigrante brasileira chegou aos Estados Unidos muito mais recente do que imigrantes de outros países. Somente 9% dos brasileiros e quase um quarto de todos os imigrantes vieram para os Estados Unidos antes de 1980. Em contraste, mais da metade dos imigrantes brasileiros e somente 28% dos outros imigrantes imigraram depois de 2000.

Em relação ao idioma, a proeficiência em inglês e grau de escolaridade mostram que o domínio dos brasileiros sobre a língua inglesa difere dos outros imigrantes. Os brasileiros tem uma proporção menor de pessoas que não falam inglês (8.3%) e destes que falam somente inglês (9.2%) comparado com 11.2% e 15.6% para todos os imigrantes. No entanto, os brasileiros tem uma proporção maior destes que falam inglês bem (25.4%) ou muito bem (39.7%) – dois terços - comparado com 53% para os outros imigrantes.

Na área da escolaridade, enquanto 20% de todos os imigrantes nos Estados Unidos não tem a escola secundária completa, entre os brasileiros essa proporção é de somente 10%, um terço dos brasileiros tem um diploma da escola secundária, comparado com um quarto de todos os imigrantes e 31% da população nativa. Os brasileiros também tem uma proporção maior de pessoas com diploma universitário se comparados aos imigrantes em geral e a população nativa. 19% dos brasileiros tem um diploma de graduação, comparado com 16% para todos os outros imigrantes e 18% para os nativos. A proporção de pessoas com diploma de pós-graduação é similar para os tres grupos: 10% para os brasileiros e os nativos e 11% para todos os imigrantes.

Sobre a participação na força de trabalho e desemprego, os brasileiros imigrantes tem um grau de participação maior no mercado de trabalho do que os nativos e os outros imigrantes. Três quartos dos brasileiros maiores de 16 anos fazem parte da força de trabalho, comparado com dois terços de todos os imigrantes e 64% dos nativos. O grau de participação dos homens na força de trabalho para os três grupos é maior: 86% para os homens brasileiros, 79% dos imigrantes homens, e 69% dos homens nativos participam na força de trabalho. O grau de participação das mulheres brasileiras é de 64%, comparado com 55% para todas as mulheres imigrantes e 59% para mulheres nativas.

Álvaro Lima afirma que é interessante ressaltar que os imigrantes brasileiros com os mais diversos níveis de proficiência em inglês tem um grau maior de participação na força de trabalho do que a população imigrante. “Estas discrepâncias são particularmente grandes para trabalhadores com habilidades limitadas em inglês”, explicou. Entre os imigrantes que não falam inglês bem, 80% dos brasileiros e 64% de todos os imigrantes participam na força de trabalho. Da mesma forma, 79% dos brasileiros e 54% de todos os imigrantes que não falam inglês estão ou empregados ou ativamente procurando trabalho.

A taxa de desemprego dos brasileiros em 2007 era somente 3.8%, comparado com 5.5% para todos os imigrantes e 6.5% para os nativos. A taxa de desemprego entre os brasileiros do sexo masculino, 3.6%, é quase a metade desta na população masculina nativa (6.7%). A taxa de desemprego entre as brasileiras é mais alta 4.6%, no entanto, elas tem uma taxa menor do que as outras imigrantes e da população nativa feminina, com taxas de desemprego de 6.4 e 6.3%, respectivamente. “Hoje, esses dados são mais altos por causa da crise econômica e todos estão sendo afetados, principamente os imigrantes”, salientou Álvaro.

Álvaro Lima explica que os brasileiros imigrantes tem uma taxa de trabalho autônomo duas vêzes maior do que todos os imigrantes e trabalhadores nativos. Quase 16% dos brasileiros trabalham nas suas próprias empresas informais, comparado com somente 7.5% de todos os imigrantes e 6.6% dos nativos. Quase 80% dos brasileiros trabalham em empresas privadas, uma taxa menor do que a de todos os imigrantes (84 %) e maior do que os 78% para os nativos.

Os brasileiros imigrantes trabalham em número menor para o governo do que os nativos e todos os imigrantes. Quatro por cento dos brasileiros trabalham no setor público, comparado com 8% dos demais imigrantes e 16% dos trabalhadores nativos. Construção, extração, manutenção, e ocupações relacionadas são as mais populares entre os trabalhadores do sexo masculino, empregando cerca de 38%. Ocupações no setor de serviço são a segunda opção mais popular entre os trabalhadores homens. Em contraste, ocupações no setor de serviço são as mais populares entre as brasileiras: Metade de todas as trabalhadoras brasileiras estão no setor de serviços. Admistração, vendas e ocupações clericais são as próximas mais populares ocupações, cada uma empregando pouco mais de 22% das trabalhadoras brasileiras.

As quatro atividades industriais mais populares entre os trabalhadores imigrantes brasileiros nos Estados Unidos são a construção, artes, entretenimento, recreação, acomodação e serviços alimentícios. A distribuição dos brasileiros nas diversas indústrias difere dos demais trabalhadores imigrantes e dos nativos. A indústria mais popular entre estes dois grupos são a educação e saúde, que empregam 17% de toda a mão de obra imigrante e 22% dos trabalhadores nativos.

Assim como com as ocupações, a distribuição de emprego por indústria entre os homens e mulheres brasileiros também difere. As brasileiras estão mais bem representadas em outros serviços, empregando pouco menos de um quarto delas. Os serviços profissionais, científicos, gerenciais, administrativos e de administração de detritos empregam 19% das brasileiras e são a segunda indústria mais procurada por elas.

Em 2007, entre os trabalhadores de tempo integral ano inteiro, a remuneração média dos imigrantes brasileiros ($31,571) foi um pouco mais alta do que a de todos os trabalhadores
imigrantes ($30,357) mas significativamente mais baixa do que a dos trabalhadores nativos
($40,476). A comparação da remuneração média para os trabalhadores do sexo masculino apresenta resultado similar. Enquanto os homens trabalhadores brasileiros ganham mais dos que os imigrantes masculinos, eles ganham somente três quartos da remuneração média dos
trabalhadores nativos. As brasileiras, em contraste, ganham não só menos do que as mulheres nativas, mas também menos do que todos as imigrantes trabalhadoras.

Álvaro Lima explica que, conforme o resultado da pesquisa, tanto as famílias quantos os indivíduos brasileiros tendem a ser menos pobres do que as populações imigrantes e nativas. Em 2007, o nível de pobreza das famílias brasileiras era de 7.1%, comparado com 14.4% para todas as famílias imigrantes e 8.6% para as famílias nativas. De forma similar, o nível de pobreza individual dos brasileiros é mais baixo (11%), comparado com 15.6% para todos os imigrantes e 12.6% para todos os nativos.

O grau de conquista da casa própria entre os brasileiors difere de todos os imigrantes e dos nativos. Os brasileiros tem um grau de propriedade domiciliária maior do que os dois outros grupos, onde 39% dos brasileiros são proprietários, comparado com 54% de todos os imigrantes e 69% dos nativos. Os brasileiros proprietários e aqueles que são inquilinos tem um nível de despesa maior com os custos de habitação do que os imigrantes e nativos. Mais de 55% dos brasileiros proprietários e 49% dos inquilinos tem custos com habitação que são considerados altíssimos (custos mensais com habitação igual ou superior a 30% dos seus rendimentos).

Álvaro Lima fala que é muito importante definir o perfil do brasileiro que vive nos Estados Unidos para que “possamos ser mais fortes como comunidade”, e ressaltou que um dos aspectos mais importantes é saber quanto contribuímos economicamente nos Estados Unidos e do dinheiro que ganhamos, quanto vai para o Brasil?  Em relação à contribuição para a economia dos Estados Unidos, 628.000 empregos diretos e indiretos são criados pelo gastos dos consumidores e empresários brasileiros. Conforme dados da pesquisa, $58 bilhões são de contribuição direta para os Produto Interno Bruto (BIP) americano, $7.5 bilhões são pagos em impostos Federais e Estaduais. Na contribuição para a economia brasileira, somente em 2007, $2.7 billhões foram em transferência dos Estados Unidos para o Brasil e $7.1 bilhões em impacto de desenvolvimento relacionado a remessas.

Lima acredita que estes números revelam não somente o perfil do brasileiro nos Estados Unidos, mas seus hábitos, costumes e expectativas. Questionado sobre a volta massiva de brasileiros para o Brasil nos últimos dois anos, Álvaro Lima disse que muitos brasileiros foram embora, mas que muitos chegaram aos Estados Unidos. Ele levantou um dado bastante interessante, ao analisar o número de brasileiros que vive hoje nos Estados Unidos, que varia de 803 mil a 1.4 milhões, de acordo com os dados das pesquisas realizadas. “Se 10% desse total tivesse retornado, o que representaria um mínimo de 83 mil e um máximo de 140 mil brasileiros, com certeza as linhas áreas teriam que colocar mais vôos diários para o Brasil, o que na verdade, não aconteceu. Teve sim um retorno de brasileiros ao Brasil, mas esse retorno não representa, em porcentagem, mais de 10% da população brasileira que vive nos Estados Unidos”.

Nossa reportagem perguntou a Álvaro Lima sobre qual o melhor conselho que ele poderia dar ao brasileiro que vive nos EUA. Ele disse: “Se você tem filhos, invista na educação porque ela vai assegurar um futuro melhor para a nova geração de brasileiros nos Estados Unidos. Se associe a uma instituição brasileira que seja forte e represente seus direitos. Pense em comunidade, para que possamos ser mais fortes. Se você está pensando em voltar ao Brasil, pense três vezes e tenha certeza de que esta é sua meta. Não haja por impulsos, mas seja capaz de analisar os prós e os contra. Antes de tudo, tome uma decisão inteligente, pensada e ponderada”.

No livro “Brasileiros na América” e em todas as pesquisas realizadas por Álvaro Lima, ele usou como fonte dados oficiais e pesquisas de amostragens. Entre eles, podemos destacar com fonte de pesquisa:  Fazendo America, de Álvaro Lima e Peter Plastrik (2007) e como referências: U.S. Census Bureau – 2000 Decennial Census, U.S. Census Bureau – 2005-2007 American Community Survey (ACS);  Brazilians in the U.S.: A Look at Migrants and Transnationalism, um esudo de Álvaro Lima, Eugenia Garcia-Zanello e Manuel Orozco (2009), A Profile of Brazilian Remitters in Massachusetts, um estudo de Álvaro Lima e Peter Plastrik (2007); Brazilians in the U.S. and Massachusetts: A Demographic and Economic Profile,  de Álvaro Lima e Eduardo Sequeira (2007), Brazilian Immigrants in Boston, de Álvaro Lima (2007) e Leveraging Immigrant Remittances for Development, de Álvaro Lima e Peter Plastrik (2006).

 

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