O diretor-gerente do Fundo Monetário Internacional, Dominique Strauss-Kahn, disse que está confiante de que as medidas anunciadas para conter a crise econômica pela União Européia e pelos Estados Unidos serão benéficas à economia mundial. De acordo com o diretor do Fundo, o pacote americano de ajuda ao sistema financeiro, no valor de US$ 700 bilhões, aprovado recentemente, bem como o projeto de aquisição de partes de bancos precisa ser implantado com agilidade.
Strauss-Kahn acrescentou que a experiência do FMI mostra que muitas crises começam com problemas de liquidez, ''mas problemas de liquidez, quando eles se tornam muito grandes, se tornam problemas de insolvência. Para resolver o problema da insolvência, você precisa agir diretamente e considerar a recapitalização (de bancos). O que estamos vendo agora na Grã-Bretanha e na zona do euro e também nos Estados Unidos é que a recapitalização é absolutamente necessária para sanar o problema.''
O Federal Reserve (FED) e outros nove bancos centrais estão ampliando seus acordos de trocas recíprocas de divisas ("swap lines") para US$ 620 bilhões, contra um volume de US$ 290 bilhões anunciado inicialmente. As trocas feitas dessa forma permitem injetar liquidez em dólares nos mercados que controlam. E o mercado tem respondido de forma positiva às medidas econômicas adotadas não só nos Estados Unidos, mas mundialmente.
Um exemplo disso é que bancos centrais mundiais estão envolvidos na missão de resgate da economia mundial. Entre eles, o Banco do Canadá; o Banco da Inglaterra (BC britânico); o Banco do Japão; o Banco Nacional da Dinamarca; o Banco da Noruega; o BCE (Banco Central Europeu); o Reserve Bank (da Austrália); o Sveriges Riksbank (da Suécia); e o SNB (Banco Nacional da Suíça).
Depois das primeiras medidas econômicas adotadas para resgatar a credibilidade do mercado, os bancos centrais garantem que vão continuar a trabalharem juntos e estão preparados para tomar as medidas apropriadas conforme o necessário. Além dessa operação conjunta dos bancos centrais, o FED ampliou os valores de seus leilões de fundos a prazo ("Term Auction Facility") com prazo de 84 dias, de US$ 25 bilhões para US$ 75 bilhões e está realizando dois leilões, nessa mesma modalidade, de US$ 150 bilhões, para disponibilizar fundos para operações no fim do ano.
Segundo Aloysio Vasconcellos, diretor da Westchester International, de Coral Springs, e presidente do BBG, Brazilian Business Group, quando “descobrimos que a crise era de alcance mundial, as principais economias moveram-se e desencadearam ações objetivas visando o estancamento da hemorragia financeira, que não parecia ter fim. As ações foram articuladas através dos bancos, certamente os melhores canais de distribuição financeira”, explicou.
Aloysio acredita que “esse movimento também buscou a recuperação de credibilidade nos principais "money centers", abalados pela crise de confiança que igualmente tomou conta das instituições”. Ele disse que com a liquidez ao sistema e a restauração da credibilidade nas instituições financeiras, ganha-se tempo para rever as regulamentações necessárias ao bom funcionamento do sistema que, segundo ele “certamente, sairá reformado desta crise”.
Carlo Barbieri, do Oxford Group, de Boca Raton, afirma que, na verdade, a crise não é americana. “Ela começou nos Estados Unidos mas outros países também estão em crise. Atentemos que a Alemanha já entrou com EU 400 bilhões só para contornar a crise em seu território. Proporcionalmente ao PIB e ao sistema financeiro do país, a ajuda é muitas vezes maior do que a aprovada pelos EUA. Da mesma forma a Inglaterra, França, etc., estão também se movendo”, explicou. No total, os governos europeus estão entrando com U$3.2 trilhões.
Barbieri disse que, infelizmente, os EUA, nos últimos anos, além de achar que poderiam resolver tudo sozinho, passaram a ser odiados e explorados pelo resto do mundo. “A Europa só começou a se mexer quando viu a água chegando à boca. Os EUA têm uma questão política e outra doutrinária para enfrentar a crise. Política, por causa das eleições e doutrinária, porque a intervenção no domínio econômico é um tabu que veio ganhando corpo desde a era pós Keynes”, informa. Barbieri acredita que a Europa foi muito mais competente e rápida, quando decidiu agir, pois não tem a questão doutrinária e os seus governos, atualmente, têm maior legitimidade.
Pacotes na Europa ajudam a controlar a crise
Os líderes dos 15 países da chamada zona do euro prometeram garantir empréstimos entre bancos até o fim de 2009 e assinaram um projeto de ajuda mútua ao mercado financeiro mundial. Em ação coordenada com o Federal Reserve (banco central americano), os bancos centrais da Europa também vão liberar recursos sem limites ao sistema financeiro.
França, Alemanha, Espanha e Áustria estão liberando 1 trilhão de euros (cerca de 1.5 trilhão de dólares), para conter a crise financeira. Os países se comprometeram a garantir os empréstimos interbancários e comprar ações para capitalizar os bancos e impedir que eles quebrem.
Na França, o presidente Nicolas Sarkozy garantiu ajuda, ao aprovar o pacote francês, de 360 bilhões de euros, que serão usados para garantir depósitos interbancários e o restante será destinado para capitalizar bancos através da compra de ações. As instituições ajudadas terão que limitar os salários de seus executivos. O presidente também determinou a criação de uma agência para centralizar o controle do pacote econômico.
A Alemanha aprovou um pacote de 500 bilhões de euros para os empréstimos interbancários e 80 bilhões de euros estão destinados a recapitalizar entidades em dificuldades. Berlim está criando um fundo de estabilização dos mercados financeiros, formado pelos 80 bilhões de euros voltados à recapitalização e outros 20 bilhões de euros correspondentes a 5% do montante das garantias.
A Espanha aprovou garantias para operações financeiras dos bancos, de 100 bilhões de euros para garantir empréstimos entre os bancos e manter o equilíbrio do mercado. Com esta iniciativa, o governo espanhol quer superar as tensões de liquidez e reativar a concessão de crédito a consumidores e empresas.
A Inglaterra está liberando 37 bilhões de libras (cerca de $64 bilhões de dólares) para três bancos britânicos: Royal Bank of Scotland (RBS), HBOS e Loyds TSB. Além da possibilidade de compras de ações ordinárias, o governo injetará capital nos bancos em troca de ações preferenciais, que poderiam dar um dividendo anual de 10%, mas esses acionistas não terão direito a voto.
A Áustria e a Itália também anunciaram planos de ajuda. O governo austríaco deverá gastar 85 milhões de euros. O primeiro-ministro australiano, Kevin Rudd, disse que seu governo vai garantir todos os depósitos bancários, sem limite de quantia, pelos próximos três anos. O governo italiano disse que vai injetar o que for necessário na economia do país. As medidas são partes de um plano acordado entre líderes dos 15 países da chamada zona do euro.
E cabe então a pergunta: A decisão da Europa e dos EUA de injetar dinheiro nas instituições financeiras foi acertada? Aloysio Vasconcellos afirma que certamente foi acertada. “Quando o descontrole é tão evidente, especialmente quando originado por desmando, corrupção e auto-interesse, não resta ao Estado alternativa que não seja a intervenção”, explicou. Aloysio afirma que o exercício das atividades
públicas, sejam elas de origem governamental ou privada, visam o bem estar da comunidade. “O Estado, nessa hora, é a entidade suprema e a ele cabe a tarefa da manutenção do ordenamento jurídico e a estabilidade social e econômica do país”, sentenciou.
Aloysio acredita que a injeção de fundos nada mais foi do que uma forma técnica de interferir no sistema financeiro. Segundo ele, outras modalidades de atuação poderiam ter sido utilizadas, mas devido ao rápido crescimento da crise, a intervenção direta e objetiva, através da injeção de fundos foi a melhor opção. “Acho que há um consenso geral quanto a isto, exceto da parte dos "puristas" defensores do livre mercado selvagem. Prevaleceu, em minha opinião, a razão e a prevalência dos interesses esmagadores da maioria , o que é sempre mais democrático e acertado”.
A crise nos Estados Unidos e o pacote de $700 bilhões
O presidente Bush disse que os Estados Unidos continuarão a trabalhar com a Europa para enfrentar a crise. Os Estados Unidos também se preparam para seguir a iniciativa européia e comprar ações de instituições financeiras em dificuldades, segundo anúncio do Tesouro americano. O secretário do Tesouro americano, Henry Paulson, anunciou que o governo americano irá comprar ações de bancos do país para garantir liquidez no sistema financeiro dos Estados Unidos.
Enquanto isso, a proposta de $700 bilhões de dólares aprovada pelo governo americano, em ajuda a empresas afetadas pela crise econômica dos Estados Unidos, apresenta medidas que pretendem minimizar a crise financeira do país. Entre as principais propostas do pacote de ajuda ao mercado financeiro, podemos destacar cinco pontos principais: US$ 700 bilhões serão liberados em parcelas para a compra de papéis podres em poder de bancos e outras empresas em dificuldades financeiras; o pacote prevê restrições nos pagamentos feitos a executivos das instituições beneficiadas pela ajuda; o governo terá participação em empresas que forem ajudadas; o pacote será supervisionado por uma comissão; e, o Tesouro terá que estabelecer um programa de seguros para garantir os ativos das empresas que estão com problemas.
Os US$ 700 bilhões serão liberados em três parcelas: a primeira, de US$ 250 bilhões será liberada imediatamente após a aprovação do pacote. Depois, se o presidente americano pedir, mais US$ 100 bilhões. A segunda metade dependerá de uma nova aprovação do Congresso. Com o dinheiro, o governo ajudará as instituições com problemas, comprando os papéis podres, em troca de ações das empresas. Dessa forma, se o banco se recuperar, os contribuintes vão lucrar com os dividendos dos papéis.
Entre as medidas de precaução, passa a haver restrições aos pagamentos dos executivos dos bancos, que deixarão de ter os chamados "pára-quedas dourados", imensos pagamentos destinados a banqueiros que estão deixando suas instituições. O governo vai cancelar deduções de impostos a empresas que pagarem mais de US$ 500 mil por ano a seus executivos. O Tesouro também lançará um programa de seguros para garantir os ativos dos bancos em dificuldade.
Os prêmios serão pagos pelas próprias instituições financeiras socorridas e está sendo criado um comitê que ficará encarregado de supervisionar a aplicação do dinheiro do pacote. Entre as autoridades que farão parte desse comitê estão os presidentes do FED, Ben Bernanke, e da Comissão de Mercado de Valores (órgão que regulamenta o mercado de ações, semelhante à Comissão de Valores Mobiliários, brasileira), Chris Cox.
Mas, será que a medida aprovada pelo governo vai resolver a crise financeira nos Estados Unidos? Aloysio Vasconcellos disse que não vai resolver totalmente a crise, mas seguramente está trazendo confiança ao mercado, já que demonstra estar o governo vigilante e próximo ao problema, pelo menos em relação a este pacote, já que esta não foi uma característica da atual administração nos 8 anos de exercício do poder. “De qualquer forma minimiza a crise e diminui, sobremodo, sua efervescência”. Ele explica, que uma das preocupações desta crise é o desconhecimento de sua extensão, já que, além da problemática do subprime, teme-se os efeitos de uma eventual crise gerada pelos desmandos dos Hedge Funds, esses com atuação global. “A pronta e determinada atuação via injeção dos U$700 bilhões no sistema mostra a vigilância sendo exercida e a disposição de intervenção estatal para garantir e acalmar os mercados, trazendo-os à normalidade”, afirmou.
Carlo Barbieri acredita que, na verdade, U$700 bilhões não resolvem a questão, porque o problema é muito maior, da ordem de U$14 trilhões. Segundo ele, o que vai ajudar a resolver a crise são as ações que venham a devolver a credibilidade ao sistema. “Por esta razão é que as ações da Europa e Oceania tiveram um impacto muito maior na economia porque o governo, ou garantiu os depósitos por 2 a 3 anos como na Oceania, ou entrou estatizando os bancos em dificuldade, injetando recursos pesados no sistema”, explicou. Barbieri cita também como exemplo a posição do Brasil que, apesar das declarações do presidente Lula da Silva, as autoridades econômicas agiram com sabedoria quando o Banco Central liberou mais de R$120 bilhões do compulsório para irrigar de recursos o sistema, e também ao estimular a compra de recebíveis e outras operações dos bancos menores pelos mais capitalizados. “Nos EUA o FED e o Governo deverão seguir os procedimentos europeus e com isto começar a estabilizar o crise”, assinalou.
A origem da crise financeira
A crise no mercado hipotecário dos EUA é uma decorrência da crise imobiliária e da crise do mercado do crédito de modo geral. As hipotecas chamadas de "subprime", que representam um risco maior de inadimplência, foram as grandes vilãs do mercado, quando as regras para aprovação da compra da casa própria por financiamentos ficou de fácil acesso e todo mundo podia comprar, mesmo aqueles com crédito ruim e falta de comprovação de renda.
Com a facilidade de aquisição de crédito, o mercado imobiliário americano entrou num período de “boom” imobiliário, com a valorização, ou melhor, a supervalorização dos imóveis, aonde uma propriedade chegava a subir mais de 25% ao ano. Com juros baixos, inventário reduzido, onde a procura era maior do que a demanda, a busca por imóveis cresceu.
Com a queda da compra dos imóveis, no início de 2006, muitas pessoas que haviam comprado casa para especulação não tinham como pagar seus financiamentos. Com isso, veio a inadimplência, o aumento do número de foreclosure, o short sale (onde o banco aceita em liberar o dono do imóvel da dívida, mediante a venda do mesmo por um valor menor do que o atual), a oferta de imóveis maior do que a procura, o mercado passa a ter medo de emprestar e comprar os "subprime", o que termina por gerar uma crise de liquidez (retração de crédito).
No mundo da globalização financeira, créditos gerados nos EUA podem ser convertidos em ativos que vão render juros para investidores na Europa e outras partes do mundo, por isso os mercados globais estão afetados pela crise originada nos Estados Unidos e que hoje se alastra por todo o mundo. Daí, o desencadeamento da crise econômica mundial.
E cabe então uma terceira pergunta: A origem da crise tem raízes somente nos Estados Unidos, ou fomos somente o copo de água que derramou? Segundo Carlo Barbieri, a crise financeira nos dias de hoje não tem fronteiras. Para Carlo, a globalização financeira é total; atinge até mesmo os países mais socialistas. E também tem pouco a ver com a crise do sub prime. “Vejam, de U$12 trilhões de crédito hipotecário, o atraso “novo” no sub prime está em U$180 bilhões. Convenhamos que é muito pouco para fazer o sistema financeiro “derreter”. Além do mais, mais de 50% dos títulos do sub prime estava já fora dos EUA, na China, Japão e em toda a Europa”, contestou.
Aloysio Vasconcellos explica que se levarmos em consideração os fatos imediatos que originaram a crise, sim. “Poderíamos descrever como a crise do subprime. Temos vivido num mundo irresponsável, que vem gerando riqueza fácil para os mais poderosos e, por extensão, beneficiando a todo o mundo. Não há um "cérebro mau" sentado numa cadeira, seja ela em Washington, Genebra, Londres ou Pequim. O capitalismo internacional agregado à globalização permitiu uma série de desmandos, e agora temos que colher os resultados dos abusos econômicos que foram cometidos”. Aloysio não vê a crise nos Estados Unidos como um copo d'água que derramou, mas como a síntese de um processo que agora entra em fase de reestruturação. Segundo ele, “profundas reformas na ordem econômica mundial se seguirão, mas vejo melhores dias pela frente, após a tempestade”, afirmou.
E como fica 2009?
Carlo Barbieri acredita que, passadas as eleições americanas, com as intervenções que estão, e seguirão, sendo feitas em nível global, a crise será estancada. A recuperação, porém, necessitará de algum tempo. “Seguramente, os EUA serão um dos primeiros a se recuperar face a dinâmica de sua economia e a menor quantidade de amarras. Mas, não será o mesmo de antes”, Segundo Barbieri, os EUA perderão um pouco de sua influência, e com isso, vão mudar seus parâmetros regulatórios.
Aloysio Vasconcellos acredita que 2009 será um ano dificil. “Acho que precisaremos de uns dois anos para ver melhores dias. Com um novo presidente, a tendência é buscar soluções para a crise financeira do país de forma mais efetiva, mas estou otimista de que melhores dias virão”, finalizou.
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