Após abrir sua segunda loja no Brasil, o designer Roberto Vascon conta sua incrível história, de vendedor de latinhas em Nova Iorque a celebridade internacional.
Roberto Vascon pode ser considerado um predestinado ao sucesso. Menino pobre que vendia garrafas com o pai para sobreviver, ele foi sem teto em Nova Iorque, fez dinheiro e sucesso com suas bolsas, virou celebridade festejada nos Estados Unidos, perdeu tudo, recomeçou do zero, e recuperou o sucesso. Depois de abrir sua segunda loja no Brasil, em Belo Horizonte, no mês de julho (a primeira foi em Natal, em março último), Vascon conta que é preciso vencer o medo para alcançar o sucesso, e enfrentar fases difíceis com a cara e a coragem.
Mineiro de Raposos, foi jovem ainda para o Rio de Janeiro, tentar ser ator. Foi parar numa boutique. “Era jovem, pobre, e cheio de sonhos. Consegui juntar dinheiro para comprar uma passagem para Nova Iorque. Queria aprender inglês e voltar para o Brasil, para conseguir um emprego melhor”, lembra.
Era 1988 quando desembarcou no aeroporto Kennedy, pegou o metrô, e desceu no lugar mais badalado de Nova Iorque: a Quinta Avenida. Arrastando a mala, foi andando até avistar o Central Park, onde moraria pelos próximos dois meses. Juntou pedaços de papelão e se escondeu do frio que começava a soprar na cidade.
Desiludido? Que nada. “Eu estava em Nova Iorque, em pleno Central Park, perto do burburinho enérgico da Quinta Avenida. Eu estava me sentindo chique demais”, ri. Para poder comer todos os dias, catava latinhas e as vendia por cinco centavos. “É claro que não dava para ir tomar um café na Starbucks. Eu ia a um lugar mais simples e tomava um café sem grife e comia um pão com manteiga por um dólar”, conta o designer.
Foi numa das noites de sem-teto, e sob as estrelas do Central Park, que Roberto Vascon teve um sonho: bolsas caíam de árvores sobre sua cabeça. Idéias fervilharam. Começou a reparar nas modernosas nova-iorquinas e suas bolsas poderosas, enquanto caminhava pelas ruas da megalópole americana. Juntou alguns dólares, comprou tachinhas e pedaços de couro, e confeccionou algumas bolsas, à mão mesmo.
Com a cara dura, montou uma banca numa das esquinas movimentadas de Manhattan. Na correria capitalista de Nova Iorque, só uma mulher parou. Olhou as bolsas e começou a conversar. “Eu sou jornalista do The New York Times, e sua estória vai sair no jornal de domingo”, disse Nancy Harris, a mulher que mudaria sua vida.
Na segunda-feira seguinte, Vascon estava na mesma esquina sendo esperado por diversas redes de televisão, editoras de moda e consumidoras curiosas. Pouco tempo e muitas vendas depois, Vascon conseguiu se mudar do banco do Central Park para um hotel simples. Mais alguns meses, e, em janeiro de 1989, abriu sua primeira loja no Village, bairro badalado de Nova Iorque. Ao todo, foram cinco lojas próprias e dois pontos de venda – um, na chiquérrima loja americana Henri Bendel, e outro no Japão.
Suas bolsas eram a “It Bag” do momento: as meninas do Sex and The City apareceram na série usando seus modelitos, Oprah Winfrey encomendou alguns mimos, Madonna e sua filhota Lola se tornaram clientes. Sua estória e suas bolsas repercutiram dos editoriais da “Diaba que Veste Prada”, Anna Wintour, até em redes de TV americanas como CNN e CBS.
Mas, em um dia fatídico, ele se cansou de tudo. Cansou das noites insones em criação, da badalação. Resolveu fechar as lojas e partiu em uma longa viagem ao redor do mundo. Dormiu como rei em castelos, ajudou muita gente, absorveu cultura e vivenciou das esquisitices do mundo árabe à elegância do refinamento europeu. Como champagne Cristal não é água, e dinheiro não é eterno, as reservas foram se esgotando, e daí a voltar para o Brasil foi um pulo.
Sem perspectivas melhores, num êxtase de coragem e loucura, comprou passagem para a Big Apple com a venda de um anel Cartier, único patrimônio que restou. O caminho de volta ele já conhecia: desembarcou outra vez no Central Park. O “Mágico das Bolsas”, segundo o The New York Times, era homeless (sem-teto) de novo. “A volta foi muito difícil. Eu era rico, tinha sucesso, e voltei pobre. Mas levantei a cabeça e acreditei que minha vida poderia mudar de novo”, recorda. Dias depois, correu até uma amiga, e pediu alguns dólares emprestados. Comprou material, fez mais bolsas, e expôs numa feira dominical. Uma jovem parou, reconheceu as bolsas. Era recém-formada em jornalismo, e anotou tudo.
Coincidências da vida, o mesmo New York Times comprou e estampou a matéria sobre seu retorno à Nova Iorque com destaque. Bumbum voltado para a lua? Sem dúvida. Clientes antigas voltaram, novas apareceram. Pouco tempo e muitas vendas depois, Vascon já tinha novo endereço, no poderoso Upper West Side, nos idos de 1998, o único em Nova Iorque até 2007, quando fechou a loja, para concentrar em produção e vendas no Brasil.
Hoje, vende em multimarcas americanas e participa de feiras em New Orleans. Deu um tempo para a crise americana passar sem naufrágios nas vendas, mas quer voltar onde tudo começou, e ter loja em Nova Iorque de novo. Planos para um futuro próximo, já que a cidade parece ter um magnetismo especial que o atrai ao sucesso.
Com fábrica em Belo Horizonte desde 2005, ficou conhecido entre vips como a ex-Miss Brasil Nathália Guimarães, as globais Glória Perez e Glória Menezes, a jornalista Regina Martelli, e desfilou modelos exclusivos em novela das oito. Sentou no divã de Jô Soares e estampou revistas nacionais. Em suas coleções, muitas cores, mas um desapego completo a qualquer ditadura de moda: “Eu nunca segui tendências. Faço o que acho bonito, não o que é seguido pela moda. Sou um criador, não copio moda, nem me agarro a ditames de estações”, alfineta. Muito couro, muito croco, tecidos com estamparia inusitada e exclusiva, cores que lembram emoções passadas e sua infância. Teve jornalista de moda americana que sugeriu abolir as filas pelas famosas e caríssimas Birkin Bags, e adotar um modelo exclusivo e diferente de Roberto Vascon. Dizem ainda, nos bastidores, que a Gucci dava constantes espiadas nas suas bolsas, digamos assim, para “refrescar as idéias”.
Em sua boa fase brasileira, quer ainda abrir franquias em São Paulo, Rio e Salvador. Objetos de desejo, está investindo na produção de sapatos femininos. Receita de sucesso? “Criatividade, coragem e muita fé em Deus”. Assim seja.
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