A história ensina que as palavras ao longo do tempo vão perdendo sentidos, agregando outros valores extrínsecos e sofrendo transformações etnológicas do momento. Como não poderia ser diferente, o contexto das vivências também interfere diretamente no significado das palavras pronunciadas, gerando reações adversas num mundo relativista e com percepções individualistas.
A leitura de cenário do cotidiano da existência que está em constante mutação brinda a presente época com um dualismo nada dialético entre o que é normal e o que é natural. Na busca por definições, significados, sentidos e percepções interlineares do diálogo humano fazem-se necessário arrazoar entre o que se é natural e o que se torna normal na construção cognitiva do ser humano.
A definição de “natural” fornecida pelo dicionário percorre caminhos que retocam conceitos do tipo: não provocado pelo homem, espontâneo; ingênito; peculiar; provável; presumível; verdadeiro e simples. Todavia, o conceito de “normal” apresentado pelo dicionário tangia-se nos recônditos do tipo: conforme à norma ou à regra comum; que serve de regra, de modelo; exemplar; habitual e ordinário.
Ao ligar a televisão e ouvir uma notícia sobre o terrorismo praticado pelos povos árabes é normal. Como também o é ao acessar um site e ler sobre corrupção no meio político. Presenciar a falta de respeito dos jovens para com os idosos é extremante normal. Ter famílias dilaceradas por divórcios, brigas e indiferenças não foge à normalidade da vida pós-moderna. Enfim, tudo é muito normal, mas incontestavelmente tais atitudes não podem ser consideradas naturais.
O natural seria socorrer o aflito, combater a corrupção, valorizar as experiências das vivências, seria respeitar as pessoas, acreditar uns nos outros, dormir tranqüilos no final da noite tendo a certeza de que foi feito o que é natural e não se contentar em simplesmente ser normal. Ser normal é se contentar em fazer o que todos estão acostumados a fazer, ser natural é fazer desinteressadamente o que se é no caráter.
A bem da verdade é que quase tudo o que a humanidade faz hoje se encaixa no âmbito das normalidades. A sociedade atual apenas reproduz um padrão de conduta que vem passando por um processo paradoxal de metamorfose intelectual e sentimental. Isto é normal na história, mas indiscriminadamente não é natural.
É normal não fazermos o que é natural, pois somos normais, naturalmente.
Que Deus nos ajude! |