Dez anos após a morte de Madre Teresa, acaba de vir à tona outro lado de sua vida interior, com o lançamento do livro ‘Mother Teresa: Come Be My Light’ (Madre Teresa: venha ser a minha luz), lançado no dia 4 de setembro, pela Doubleday, nos Estados Unidos. Nele, em lugar da fé incondicional, Madre Teresa revela turbilhão de dúvidas quanto à presença de Cristo em sua vida, quanto ao poder das orações e até mesmo quanto à existência de Deus. O lançamento do livro está gerando bastante controvérsia, mas a canonização de Madre Teresa continua em pé. Segundo a Irmã Nirmala, sucessora de Madrea Teresa na chefia da organização Missionárias da Caridade, entidade que ela criou para ajudar os carentes de Calcutá, a crise de fé de Madre Teresa não afetará a sua canonização. Para Irmã Nirmala, este foi o caminho que Deus escolheu para sua purificação interior e transformação.
O livro, que apresenta as cartas escritas pela Madre Teresa de Calcutá durante seu ministério, foi compilado e editado pelo reverendo Brian Kolodiejchuk, um dos defensores de sua canonização, e revela que ela tinha dúvidas profundas sobre Deus. "Jesus tem um amor muito especial por você. Quanto a mim, o silêncio e o vazio são tão grandes que olho e não vejo, escuto e não ouço", escreveu ao reverendo Michael van der Peet, em setembro de 1979. Antes mesmo do lançamento, o livro já estava causando alvoroço no meio religioso por causa do perfil de Madre Teresa, uma mulher admirável que mudou a história de milhares de pessoas, principalmente de crianças, durante seu ministério de assistência social na Índia.
‘Mother Teresa: Come Be My Light’ agrupa as cartas enviadas a seus confessores e superiores que demonstram que ela passou a maior parte de seus últimos 50 anos de vida no meio de uma profunda crise espiritual. Mesmo com dúvidas que a assombravam, ao final, a religiosa dizia não ter abandonado sua fé, nem chegou a relaxar em seu trabalho humanitário. O desejo dela era que as cartas fossem destruídas, mas o Vaticano determinou que fossem preservadas porque poderiam se transformar em relíquias de um santo, disse uma representante da Doubleday.
O livro reúne pela primeira vez os pensamentos dela em um único lugar e convida o leitor a uma revisão mais próxima de sua vida dez anos após sua morte. Nas cartas, Madre Teresa descreve como se sentia sozinha e separada de Deus. Suas dúvidas em relação à religião não são, contudo, novas. Elas tornaram-se públicas em 2003, durante a investigação para descobrir se ela se qualificava para a santidade, um processo que foi acelerado pelo Papa João Paulo II. Madre Teresa já foi beatificada e os requerimentos para ser santificada já foram providenciados.
O sacerdote Brian Kolodiejchuk foi o responsável por reunir a documentação para o processo de canonização da Madre Teresa, iniciado em 2005. O material informativo das cartas não deve afetar a campanha pela santificação, já que muitos santos na história da Igreja eram perturbados por dúvidas em relação a sua fé, a começar por são Tomé, que duvidou que Jesus havia ressuscitado, ou Pedro, que negou Jesus três vezes antes de sua crucificação. Líderes mais comtemporâneos como Santo Agostinho e São João da Cruz, entre outros, também tiveram dúvidas em sua fé.
No caso de Madre Teresa, chama atenção o longo período que durou sua "noite escura". As cartas em que ela manifesta dúvidas com relação à própria fé abrangem um período de cinqüenta anos. Para o padre Kolodiejchuk, autor do livro, essa longa jornada de angústias e de dúvidas, em vez de desmerecer a missionária, apenas enaltece suas virtudes. "Ela não sentia o amor de Cristo dentro de si e poderia ter-se fechado. Mas estava de pé toda manhã às 4:30 a.m., sempre pronta a se dedicar em tempo integral aos menos favorecidos. Esse continua sendo um exemplo poderoso", diz ele.
O conteúdo das cartas de Madre Teresa provocou respostas diferentes. Representantes da comunidade brasileira expressaram sua opinião sobre o assunto. Padre Carlos Anklan, da Igreja Católica Nossa Senhora Aparecida, de Pompano Beach, afirmou que, “aparentemente, poderíamos dizer que existe uma contradição entre a mulher pública, sempre vestida de forma humilde, com um semblante forte de quem estava seguindo um chamado de Deus para servir os mais pobres do nosso mundo, em contraste com a mulher frágil diante da ‘noite escura’ da vida espiritual”. Ele explica que, na verdade não existe contradição. A experiência descrita por Madre Teresa não é única. Na tradição cristã-católica encontramos outros personagens que descrevem situações similares, como São João da Cruz, que chamou estas experiências de “Noite escura da alma”.
Padre Carlos afirma que os escritos de Madre Teresa nos ajudam a encontrar a pessoa humana que ela foi. “Nós católicos chamamos de ‘santos e santas’ aquelas pessoas que souberam viver aqui na terra de forma exemplar o seguimento a Jesus Cristo. São heróis na fé, e nós podemos aprender de seus exemplos para também melhor seguirmos o chamado que Deus faz a cada um de nós. Ninguém nunca toma o lugar de Jesus, o Filho de Deus, mas os bons exemplos nos aproximam do nosso mestre”. Segundo ele, o exemplo de Madre Teresa é heróico porque mostra alguém que soube compreender o que Deus pedia dela, e, mesmo se por muito tempo vivia esta experiência de ‘ausência’, soube cumprir até o fim a missão que Deus lhe confiara. “É fácil seguir a Jesus quando tudo está bonito, sorridente. Tudo se torna um desafio quando não sentimos a mesma emoção”.
Padre Carlos disse que, pessoalmente, fica feliz em saber que Madre Teresa, pessoa tão nobre e reconhecida pela sua santidade não somente pelos católicos do mundo, mas por povos de diferentes tradições religiosas, soube expressar seus momentos de “deserto”. “Todos nós um dia devemos conhecer o “deserto de nossa fé”, mas é importante saber que não devemos caminhar sozinhos no deserto, pois ali nos perderíamos. Madre Teresa nos mostra que soube compartilhar com pessoas sábias sua caminhada. Por isso pôde ser fiel até o fim”, afirmou.
O pastor evangélico Abraão de Almeida, da Igreja Evangélica Brasiliera, de Coral Springs, disse que não crê que Madre Teresa tenha conhecido Jesus Cristo como o Senhor e Salvador de sua vida. “Ter uma fé católica é muito diferente de ter uma fé cristã”, explicou. Pastor Abraão explicou que todo homem ou mulher de Deus passa por alguma espécie de crise de fé, mas essa crise não é de uma forma geral. Os exemplos de Tomé e Pedro não podem ser tomados como padrão, pois aqueles apóstolos agiram assim antes da dispensação da igreja, que começa no Pentecoste. Pedro professa a sua fé nas cartas que escreveu, e nelas não há a menor sombra de dúvida. Paulo escreveu: "Eu sei em quem tenho crido, e estou bem certo...". Em quem nós cremos é bem mais importante do que em que nós cremos. Jesus disse que "quem crê em mim como dizem as Escrituras, rios de água viva fruirão do seu interior". Ele explica que essa vida abundante é para quem crê em Jesus como dizem as Escrituras. “Infelizmente, a fé católica não resiste à prova das Escrituras, por ser muito mais uma cópia do antigo paganismo de origem babilônica”. “Como pode uma pessoa que passa a vida toda duvidando do básico da vida cristã ser uma cristã?”, questionou o pastor.
Segundo o padre Matthew Lamb, da Flórida, entrevistado pela ‘Time’, as cartas revelam uma autobiografia de apelo espiritual que pode ser comparada com as Confissões de Santo Agostinho. "Isto pode fazer com que ela não seja lembrada somente por seu trabalho com os pobres, ela será também uma pessoa que experimentou dúvida, ausência de Deus em sua vida. Já o reverendo James Martin, editor da revista jesuíta ‘America’, nos Estados Unidos, disse que nunca leu a história da vida de um santo que tivesse uma sombriedade espiritual tão intensa. “Ninguém sabia que ela estava tão atormentada”, comentou o reverendo James Martin. “E sabe com quem acontece isto? Com todo mundo. Ateus, crentes, céticos, todos", afirmou Martin.
Da mesma opinião é o Cardeal espanhol Julián Herranz, ex-“ministro” de Justiça do Vaticano. “Os momentos de crise espiritual dela, nos quais chegou a duvidar da existência de Deus, são normais", explicou. Herranz afirmou, em entrevista publicada pelo jornal ‘ La Republica’, que estes momentos de crise provaram que os grandes santos são normais. "A vida dos santos está cheia de confissões parecidas, pessoas que provaram o deserto da noite da fé", assinalou Herranz, que agora é membro do conselho de cardeais da congregação para as causas dos santos. Para o espanhol, vários santos tiveram momentos de "fraqueza", como conta a Bíblia, desde Jesus no Jardim do Getsêmani e na cruz, até as três negações de Pedro. "Esta é a prova de grandeza da fé da beata Madre Teresa e nada tira Sua Santidade, por isso o processo de canonização não se verá condicionado a estas cartas", acrescentou.
Alguns trechos do livro
Os textos tratam de vários assuntos, mas os que devem causar mais polêmica são os que constam do que a editora chamou de "cartas sombrias".
"Por favor reze especialmente por mim para que não estrague a obra d'Ele e que Nosso Senhor possa se mostrar - pois há uma escuridão tão terrível dentro de mim, como se tudo estivesse morto", escreveu ela em 1953. “Tem sido assim mais ou menos desde que dei início à ‘obra’”.
Em 1956: "Tão profunda ânsia por Deus - e ... repulsa - vazio - sem fé - sem amor - sem fervor. (Salvar) almas não atrai - O céu não significa nada - reze por mim para que eu continue sorrindo para Ele apesar de tudo."
E em 1959: "Se não houver Deus - não pode haver alma - se não houver alma então, Jesus - Você também não é real."
Às vezes ela tinha dificuldade em rezar. "Digo palavras de orações comunitárias - e faço de tudo para tirar de cada palavra a doçura que ela tem de transmitir - mas minha oração de união já não existe - não rezo mais."
Madre Teresa, sua história e vida
Madre Teresa, natural da Albânia, dedicou a vida aos pobres e doentes na Índia, e morreu em 1997 aos 87 anos. Ela cruzou o século XX como a representação perfeita da boa cristã. A fé inabalável que demonstrava e sessenta anos de trabalho ininterrupto com os probres renderam-lhe o Prêmio Nobel da Paz, em 1979. Sua determinação em ajudar o próximo, dizia ela, vinha da convicção de que Cristo estava presente em todos os lugares, "em nosso coração, no sorriso que damos e no sorriso que recebemos".
O processo de beatificação foi aberto dois anos depois, sem que o papa João Paulo II aguardasse o período usual de cinco anos para considerar sua santidade. Foi um dos processos mais rápidos da história do Vaticano. Madre Teresa foi beatificada em 2003. Segundo a tradição católica, um milagre adicional atribuído a ela deve ser verificado para que ela seja elevada à condição de santa. Madre Teresa já foi beatificada, mas não canonizada.
A Igreja Católica leva em consideração a grande popularidade de Madre Teresa em várias partes do mundo. Na Índia, não apenas católicos, mas hindus, muçulmanos, sikhs e budistas costumam recorrer à religiosa. |